Genya Tachibana foi um amante do cinema durante toda sua vida. Agora, ele produz documentários, e está se deliciando com a idéia de ter sido escolhido para fazer um filme comemorativo de um famoso estúdio que fechou suas portas depois de 70 anos de produção. Além de ser uma grande oportunidade, isto significa que ele poderá entrevistar sua atriz favorita, Chiyoko Fujiwara, uma grande estrela do pós-guerra que se aposentou misteriosamente no auge de sua lendária carreira e foi viver reclusamente. Quando ele finalmente encontra a mulher que conquistou seu coração para a tela “prateada”, descobre que apesar de um fã devoto poder desvendar os segredos de seu ídolo, ele não consegue chegar nem perto de descobrir os mistérios de sua capacidade de seduzir a tantos.
Millennnium Actress é um trabalho de Satoshi Kon que bem descreve sua capacidade de escrever entre as linhas. Para seus personagens as divisões entre passado e presente, realidade e fantasia, sonho e pesadelo, são sempre extremamente flexíveis e muitas vezes densos como vapor. Vemos seu interesse em mostrar como e porque alguns filmes se tornam parte de nossas vidas, o que há por trás desta mistura de imagem, som e sonho que se entrelaça tão fortemente na consciência humana.
No processo de Chiyoko contar sua historia para Genya e seu jovem cameraman, ela também lava a todos por uma viagem guiada pela cultura do cinema no período pós-guerra do Japão, e mostra como uma nação reinventou sua história e a si mesma. Ao ouvir o relato, a dupla se vê enredada no passado da atriz, sendo parte da multidão ou figurantes em seus filmes ou em cenas de suas memórias, até Tachibana (o incorrigível fanboy) aproveitar a oportunidade e atravessar a barreira que divide o filme no projetor da cabeça do espectador. Ele encarna o papel de guardião e protetor da atriz em cenas de batalhas medievais, em seus dramas e também em suas memórias. Então, volta a realidade, e está na sala de estar da entrevistada, envergonhado e cheio de um prazer infantil por ter dividido um momento com sua diva.
Satoshi Kon é também um mestre em manipular fantasmas. O primeiro amor de Chiyoko, um homem que entrou em sua vida como um herói de drama de novela e desapareceu da mesma maneira singular, preencheu o horizonte emocional de toda sua vida. A devoção de Genya por sua adorada atriz é a mesma forma de amor. Ambos encontraram fama e fortuna, mas foram fadados a buscar algo que estava além de seu alcance, e apesar de a vida que levaram ser um emaranhado tão grande de fantasia e realidade que nem eles, e nem nós, os espectadores, conseguimos separar um do outro, encontramos a felicidade de ambos, não numa explicação lógica, e sim racional. E isto basta.
O estilo de animação utilizado por Kon é deliberadamente antiquado, com quadros estáticos e sequências com nada além de bocas se movendo. Já há muita complexidade na história por si só. Simples, as vezes com linhas quase cruas e cores que ecoam a realidade combinam com belos e trabalhados cenários criando uma elegante e complexa meditação sobre o poder dos sonhos e das imagens, a necessidade de inventá-las, e o impacto transformador de se encontrar a estrela que guiará sua vida.
Millennium Actress nunca foi lançado no Brasil.
Veja o trailer:
Ficha Técnica
Título: Millennium Actress
Título original: Millennium Actress (千年女優 Sennen Joyū)
Direção: Satoshi Kon
Ano de produção: 2001
Estúdio: Genco/Madhouse
Música: Susumu Hirasawa
País: Japão
Gênero: Animação/Drama/Fantasia
Duração: 87 minutos
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