Quadrinhos, Reviews|23/04/2010 2:35

Local – do início ao fim da jornada

Doze histórias em doze cidades diferentes dos Estados Unidos, cada uma evocando a atmosfera do lugar em que se passa, e uma personagem central como elo de ligação entre todas elas. Bem, este é o conceito de Local.

Entretanto, o que vemos é algo muito mais forte e profundo. Local não é uma história sobre doze lugares.  É a história de Megan McKeenan e como capítulo após capítulo ela cresce e amadurece, com cada evento em sua vida ajudando a definí-la e redefiní-la.

Ao ler todos os doze capítulos, é fácil perceber o enorme montante de situações em que Megan se vê envolvida. Seria fácil, por exemplo, pensar que  a experiência com o namorado delinqüente no primeiro capítulo, fizesse dela uma pessoa mais desconfiada e esperta no segundo capítulo. Não é assim que a vida real funciona e Brian Wood certamente não toma caminhos fáceis ou previsíveis na construção de sua heroína. Ao contrário, acompanhamos Megan entrando nas mais incríveis enrascadas, muitas vezes cometendo os mesmos erros. Quando Local se inicia ela é jovem e ingênua, acreditando saber tudo, mesmo que a realidade lhe prove o contrário constantemente. A solução de Megan é sempre fugir dos problemas, e mesmo achando que esta é a melhor saída, tudo parece voltar e ecoar em sua vida e decisões futuras. Esta fuga é sempre o ponto de partida para uma nova aventura em um novo lugar, e é crédito de Wood criar situações em que mesmo quando Megan começa (e deseja) se assentar, o “acaso” traz o passado de volta e a empurra para um novo e desconhecido ambiente. Em uma de suas declarações sobre a obra Wood menciona que os leitores amam ou odeiam Megan. Woods criou uma personagem com a qual é possível crescer e aprender a gostar; não é o tipo de pessoa cativante num primeiro momento, mas no fim da jornada dos doze capítulos poderíamos até chamá-la de amiga.

Wood vai muito bem em quase todos os capítulos de Local, usando lugares convencionais na progressão da história. Já que a natureza da obra é de que se tenha doze histórias curtas, há espaço pra que se tente coisas diferentes; o terceiro capítulo (em Richmond, Virginia), quase não mostra Megan, contando a histórias de músicos e bandas que casa-se perfeitamente com a história como um todo.. Há dois capítulos focados em parentes de Megan (o primo Nicky e o irmão Mathew), que acabam contando mais sobre Megan do que se imagina. E, claro, é impossível ignorar a estrutura da primeira história em que vemos as possibilidades de como um situação ruim pode se resolver. É um extra numa obra que está em constante mudança; faz sentido que o estilo das histórias seja distinto.

Depois de tanto ver Ryan Kelly contribuir em trabalhos como Os livros da Magia e Lúcifer, é um deleite reconhecer seu traço em Local. Sua tinta forte dá o peso real de cada página, fazendo os personagens e lugares parecerem sólidos e reais. E sua melhor contribuição é poder ver o amadurecimento de Megan ao longo de doze anos. Se comprarmos sua aparência do primeiro com o último capítulo, veremos que é a mesma pessoa, mas com certeza reconheceremos os traços do tempo. Não apenas palas expressões faciais, mas toda a linguagem corporal é transformada. A exasperada e impulsiva garota dá lugar à uma tranqüila e confiante Megan.

Local é o tipo de obra que um artista pode basear toda sua carreira. Uma obra ao memso tempo forte, densa e divertida. Com Megan, só há uma saída: prepare-se para por o pé na estrada. E pode acreditar, vai valer a pena.

Os doze capítulos de Local foram lançados no Brasil em dois volumes – Ponto de Partida e Fim da Jornada –  encadernados em 2008 e 2009 pela Devir Livraria.

Leia aqui o primeiro capítulo de Local.

Ficha Técnica

Título: Local
Título Original: Local
Autoria: Brian Wood /Ryan Kelly
Editora: Devir Livraria
Ano de Lançamento: 2005 (EUA) 2008/2009 (Brasil)
País: Estados Unidos

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