Quadrinhos, Reviews|12/04/2010 12:24

Bordados – vida à portas fechadas

É o início dos anos 1990. O lugar: uma casa de família em Teerã. Um almoço formal chega ao fim. Depois que o homem da casa cumprimenta a esposa pela refeição, ele e os damais homens vão tirar suas sestas. À jovem Marjane cabe preparar o samovar (chá típico Iraniano), enquanto sua mãe, tia, avó e amigas lavam a louça. Quando se retiram para a sala de estar para beber o chá tudo está pronto para o assunto mais importante do dia: fofoca.

Falar dos outros pelas costas é ventilar o coração…”. Este é o lema da avó, e ela ilustra a idéia com uma história da juventude. Se refere à uma jovem mulher chamada Nahid, que ao se despedir do namorado secreto por estar de casamento arranjado com outro, acaba perdendo a virgindade. Como lidar com esta vergonha? A avó de Marjane dá um conselho que não sai como o planejado… Depois de uma sessão de rizadas, uma da mulheres afirma que pelo menos Nahid “tocou um testículo”, uma vez na vida: “Nunca vi ou toquei nada” Então como ela concebeu quatro crianças? Uma amiga chocada pergunta. Ela explica… Porém, em momento algum Marjane Satrapi se sentiu compelida à explicar porque decidiu transformar esta festa de fofocas em uma graphic novel – ou o que ela esperava conseguir com isto. A obra fala por si só, e até certo ponto, para si mesma, e há um certo charme subversivo nisso tudo.

O “bordado” iraniano seria equivalente ao brasileiríssimo “tricô”, não fosse uma acepção bastante particular: a expressão designa também a cirurgia de reconstituição do hímen, uma decisão pragmática para as mulheres que não abrem mão de ter vida sexual antes do casamento mas sabem que precisam corresponder às expectativas das forças moralistas do país.

As graphic novels são um formato híbrido que ainda precisam de tempo e cuidado suficiente para terem sua própria imagem no mundo. São assombradas pelos fantasmas dos super-heróis e geralmente associadas como leitura fácil para crianças. Satrapi é uma das grandes artistas-escritoras (podemops citar Art Spiegelman e Joe Sacco como outros famosos de peso) que explorou este terreno onde nenhum departamento de marketing já ousou ameaçar. Eles capturam os leitores pela surpresa, casando imagens e texto de formas estranhas e sedutoras, em terrenos altamente controversos. E antes que se possa percebe, eles fazem com que nos sintamos lá, ao lado deles, quase como parte da história. É impossível ler a autobiografia de Satrapi (Persépolis) sem se identificar com a heroína de cabelos escuros e olhos grandes.

Bordados não é uma continuação de Persépolis, mas se situa no coração do mesmo mundo – uma sociedade brutalmente policiada, com uma cultura extraordinariamente rica e inventiva, e mesmo que seja apenas a portas fechadas, as mulheres são selvagens e livres, divertidas e sensuais, pelo menos enquanto os homens tiram suas sonecas.

Bordados foi publicado no Brasil pela Quadrinhos na Cia em março de 2010.

Ficha Técnica

Título: Bordados
Título Original: Embroideries
Autora: Marjane Satrapi
Tradução: Paulo Werneck
Páginas: 136
Ano de Lançamento: 2010
Editora: Quadrinhos na Cia

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