Música, Reviews|30/11/2009 1:58

A Década da Consolidação na Música

Nos anos 50 a música tomou um caráter comercial na sociedade. Desde então gravadoras, produtoras e distribuidoras, munidas de seus formatos de mídia, ditaram a forma como música deveria ser criada, reproduzida e consumida.

O fato das pessoas terem que pagar para ouvir música fez com que todo mundo ouvisse menos música do que queria. Com exceção dos fanáticos cheios da grana.
O problema é que a maioria de nós não tinha consciência disso.

familyradio50s

Ouvindo menos música, evidentemente, as pessoas se prendem ao que mais gostam. Então o mais comum era alguém ter vários discos das bandas que mais gostava, e registros esparsos de outros artistas.

Isso criou uma segmentação no gosto musical popular. Que num círculo vicioso, deu origem a não só os movimentos musicais da segunda metade do século passado, mas tambem gerou a pasteurização e falta de criatividade em todos os estilos musicais.

Isso não é de todo mal, pois existiram grandes músicos e compositores que ultrapassaram os limites dos gêneros musicais mais populares.
Mas quantas misturas, mutações, recortes e colagens, e evoluções disso tudo perdemos simplesmente porque um garoto de 13 anos na década de setenta só tinha dinheiro pra comprar 1 disco por mês, e por isso comprou discos de rock a vida inteira?

boyvinyls

Posso garantir que alguns desses elos foram recuperados nos primeiros 10 anos do século XXI – A década da Consolidação na Música.

Ninguem pode negar que a internet mudou a história da humanidade. E ainda bem, porque a coisa estava feia em quase todos os aspectos culturais.
Entre 1999 e 2001 duas entidades virtuais viraram a música de cabeça pra baixo: MP3 e Napster.

Poder converter em dados de computador a música do CD, compartilhá-la com qualquer pessoa do mundo gratuitamente parecia bom demais pra ser verdade.
Me lembro da primeira música em mp3 que baixei pelo Napster: Fuel do Metallica.
Foi tão incrível ter a sensação de que dalí pra frente eu poderia ouvir tudo que eu quisesse a qualquer momento.

Essa mesma iluminação aconteceu com muita gente, mais cedo ou mais tarde.
E numa década em que as pessoas puderam ouvir tudo o que quiseram, tivemos dois pontos marcantes:
1 – O revivalismo.
2 – A mistura de estilos e épocas.

O indie rock de Strokes e White Stripes trouxe de volta o rock de garagem dos anos 60 e 70. Além de inspirar uma infinidade de bandas que retomaram o momento e deram muitos passos adiante.
A música eletrônica na França e Inglaterra lembrou todo mundo de como é bom dançar ao som da disco music setentista e do synth pop dos anos 80. E que seus elementos tem muito espaço nas pistas de hoje.

Daft Punk

A sensação nos primeiros anos 2000s era de que todo mundo estava descobrindo discos velhos. E naturalmente, começaram a aperecer variados tipos de mutações e amálgamas de estilos musicais envolvendo influências bem antigas.

Posso citar alguns ótimos exemplos como:
Daft Punk – disco music 70s, com synth pop 80s, com house music 90s.
Animal Collectivefolk, rock progressivo, música eletrônica e música experimental.
The Raveonettessurf rock 50s com um ar de rock de garagem barulhento.
Beach House – orgãos típicos do rock sessentista, melodias hipnóticas de dream pop e drum machines dos 80s.
The Mars Volta – hard rock psicodélico dos 70s com salsa e música experimental.
Gnarls Barkley – rock e funk 70s com black music moderna.
Wolfmother – quase um clone de hard rock 70s com elementos de rock alternativo.
Midnight Juggernauts – o som único do Electric Light Orchestra com electro rock.
Black Moth Super Rainbow – instrumentos do rock psicodélico 60s e 70s com experimentalismo moderno.
The Avalanches – centenas de samples de música pop de todas as épocas com trechos de filmes e outras citações
The Go! Team – temas de ação, cantos de líderes de torcida, guitarras shoegaze dos 90s, e até um pouquinho de hip hop e funk 70s.
Air e Zero 7 – música pop e trilha de filmes dos anos 70.

The Raveonettes - Chain Gang of Love

O cardápio é farto. Nem se eu passasse a noite citando bandas conseguiria mensurar a versatilidade das misturas que estão rolando.
Mas podemos ver claramente que as barreiras cairam. As velhas competições e preferências entre gêneros musicais estão fazendo cada vez menos sentido. Afinal, as divisões entre esses mesmos estilos estão perdendo lugar para experimentos que, gradativa e sutilmente, nos levam de um lado para o outro.

Esteja você descobrindo novos horizontes musicais ou não, o mais importante é saber que daqui pra frente as mentes criativas dos músicos estão livres. E que todos nós podemos explorar praticamente tudo que a humanidade produziu musicalmente, não só dos anos 50 pra cá, mas muito além.

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