Quadrinhos, Reviews|26/11/2009 12:10

Retalhos – graça em quadrinhos.

retalhos_blankets_coverNo interior de cada família, há momentos e épocas, que vão, para o bem ou para o mal, criar memórias duradouras. Algumas vezes estas memórias persistem em nos assombrar e lembrar nossas ações (ou erros). Outras, nos lembram dos bons e velhos tempos que não voltam. E por fim, existem aquelas vezes em que a nostalgia nos faz sorrir e sofrer ao mesmo tempo. Quaisquer que sejam estas memórias, não importa qual efeito tenham, elas servem para moldar as pessoas em quem nos transformamos. Na obra-prima autobiográfica de quase 600 páginas de Craig Thompson chamada Retalhos (Blankets), o leitor é levado numa jornada rumo às reminiscências do autor.

Retalhos é sem dúvida uma obra ambiciosa, para dizer o mínimo. Apesar de haver muitos quadrinhos autobiográficos surgindo por aí, a história de Thompson marca por ser dolorosa, divertida e muitas vezes surreal. Começando com um Craig ainda jovem e continuando durante seu amadurecimento até a idade adulta, o romance (podemos chamar assim) mostra as cicatrizes emocionais deixadas por seus devotos pais cristãos, sua relação de amor e ódio com seu irmão mais novo (retratada nas passagens mais engraçadas e tocantes), seu primeiro amor, e o gradual declínio e eventual perda de sua fé.

As numerosas linhas de memória de Craig Thompson se encontram e se misturam no decorrer do livro revelando como o autor chegou a certos pontos de sua vida – mentalmente, fisicamente e espiritualmente. Um ponto interessante é como estas graduais mudanças são retratadas graficamente. As metamorfoses do autor são sempre evidentes, mesmo nos momentos mais sutis, e é até mesmo possível ver em cada página, a pessoa em que aquela criança de olhos grandes se tornou. A graça e originalidade da história está em observar o caminho até esta maturidade.

retalhos_blankets_2A arte de Retalhos mostra bem o estilo de Thompson, com fortes influências de seu trabalho anterior Goodbye, Chunky Rice, embora vejamos um estilo mais realista na mais recente obra. Apresentado de modo calmo, casual, fluindo entre o preto e o branco, Retalhos possui um visual único.

Porém, o brilhantismo desta obra está na habilidade do autor em usar o branco e o preto e manipulá-los (com a primazia que poucos mangakas possuiriam) de tal forma a demonstrar humor e emoção na medida certa. Há momentos em que nas expressões surreais e sonhos fantásticos a fluidez entre o preto e o branco é tamanha, e a arte se transforma tão drasticamente, que se pode sentir como se estivesse inteiramente em outro livro. Suavemente, traços elegantes se tornam angulares, duros, linhas e formas vívidas. Tudo de modo a demonstrar sentimentos de depressão, raiva, confusão, perda, e incontáveis outros momentos.

Retalhos está num patamar elevado em seu gênero, com muito a oferecer à qualquer um. Ao ler, é inevitável parar de tempos em tempos e refletir o quanto podemos nos identificar com a história. Raramente um obra inspira empatia(duradoura) do leitor. Este livro é altamente recomendável à todos os públicos, desde o fã de super-heróis ao aficionado por arte. Retalhos é, em sua essência, uma obra-prima, e sua história honesta sobre memórias é algo que não se pode perder e jamais esquecer.

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