Literatura, Nas Arestas, Reviews|06/11/2009 1:26

A Estrada – pavimentada com desespero

a_estradaEm A Estrada um garoto e seu pai perseveram através do frio, humidade, destruição, pilhas de corpos, paisagens cheias de cinzas em um mundo pós-apocalíptico. A imagem é brutal até mesmo para os altos padrões de desespero de Cormac McCarthy. Esta parábola é ao mesmo tempo fascinante e terrível, escrita com uma urgência e abastecido com a força daquilo que parece um pesadelo universal. A Estrada seria pura tristeza se não fosse seu esplendor e beleza selvagem.

A obra é um encantamento devastador  – uma poesia cinzenta. McCarthy invoca suas visões mais fortes para revelar a devastação. Ele dá voz ao inenarrável num conto tenso e potente demais para ser ignorado, apesar do tema tão batido. O escritor mostra um fúria quase bíblica enquanto beira o testemunho de visões que o homem deseja nunca ter que presenciar.

“Não há profeta na história do mundo que não sentiria honrado hoje”, diz o pai, tentando fazer o filho entender porque eles habitam este mundo cinzento. “O que quer que tenham dito, estavam corretos”. Por isso “A Estrada”  se estrutura num retrato único do fim dos dias, cheio de morte e desespero se manifestando em cada página. E num milagre perverso testemunhamos uma última calamidade quando nada parece poder ficar pior.

Cormac

Cormac McCarthy

Contudo, enquanto o menino e o homem seguem, encontrando resquícios de um mundo perdido e mostrando ao leitor com mais e mais pistas sobre o que o destruiu, a narrativa é iluminada por uma emoção extraordinária. “Ele só sabia que a criança era sua garantia”, é dito sobre o pai e sua missão. “Ele pensava: se ele não é a palavra de Deus, então Deus nunca falou.”

Os esforços infinitos do pai para proteger seu filho ficam mais aflitivos com a falta de comida, abrigo, segurança, companhia e esperança na maioria dos lugares por onde eles se aventuram.

Manter a memória viva é uma dificuldade, já que o passado fica cada vez mais remoto. É como se estes personagens solitários experimentassem “uma espécie de glaucoma de suas visões de mundo.” O passado se tornou um lugar inabitável para os novos cegos, todos vagarosamente sucumbindo. Enquanto se olha para o futuro, “não há mais tarde,” diz o livro secamente. “Este é o mais tarde.”

O cenário de ruína de A Estrada é constituído com artefatos terríveis e reveladores. Há jornais antigos (“Notícias curiosas. Procupações tolas.”). Há uma única lata de Coca-Cola, ainda gasosa enquanto todo o resto virou cinzas. Há corpos carbonizados, congelados em suas últimas posturas, como um homem-morto sentado em sua varanda como “um boneco que anuncia um feriado.” Algumas vezes essas cenas lembram ao pai “da enorme rosa crescendo na janela” às 1:17 da manhã, o momento em que os relógios pararam para sempre.

A Estrada não se preocupa em explicar o que causou o cataclisma. É muito mais do que isso. O seu impacto está na absoluta falta de lei e na única certeza de um pai: ele precisa manter seu garoto vivo não importando o perigo que enfrentem.

Enquanto se movem através da Estrada metafórica do título, pai e filho encontram todo tipo de perigo. O clima é hostil, a paisagem sem cor, a ameaça da fome é iminente. Há também os perigos humanos, uma vez que a estrada não está totalmente abandonada.A visão de uma pessoa chamuscada ao longe, são marcas das atividades do caminho. Grupos de pessoas estocadas em porões são suprimentos de comida para outras pessoas. Num livro repleto de zumbis virtuais e fixado na morte em vida,  acabamos vemos mesmo vários mortos-vivos.

Apesar de buscar ser livre de sentimentalismo, a obra dá ao pai e ao filho uma memória que os faz continuar seguindo, mesmo sendo esta memória a de como e porque a mãe do menino escolheu morrer. Ela estava grávida quando o mundo explodiu, e o garoto nasceu dias depois que ela e o homem “assistiam as cidades distantes queimarem.” Ela desistiu e pegou uma bala: “Ela se fora e toda a frieza deste ato foi seu último presente.” Em um livro em que os eventos são isolados e escolhidos cuidadosamente, a aparição de uma arma de fogo no fim da história vem cheia de ecos de sua decisão final.

O suicídio da mãe é mais uma razão de atordoamento no último gesto de McCarthy: um abraço na esperança, mesmo em face da desesperança que cerca. É quase como se a história buscasse por perdão. O que adiciona ainda mais força à um livro que mesmo sendo simples e misterioso, crítico e claro.

A Estrada não nos oferece uma via de escape ou conforto. Porém, sua sabedoria sem medo é mais indelével do que a segurança poderia ser.

Ficha técnica

Título: A Estrada (The Road)

Autor: Cormac McCarthy.

Rio de Janeiro: Alfaguara, 2007

234 páginas.

Tradução: Adriana Lisboa

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