Quanto menos mistério existir em alguma coisa, menos mágica ela se torna. Isso é verdade para a maioria das coisas. Para alguém que não conhece nada sobre computadores, a idéia da internet é um mistério, e as vezes assustadora. Para alguém que nunca viajou, terras distantes se apresentam como uma realidade alternativa, quase intangível.
Esta é uma idéia explorada pela ficção, seja em livros, filmes e outras várias formas de arte, e também como base de mitos, religiões, que exploram a idéia de como o mundo deve ser e de como surgiu. A própria natureza humana é em si um grande mistério. Existem incontáveis teorias por trás das lógicas e emoções humanas, mas grande parte da essência dessa humanidade permanece desconhecida. Algo tão intangível, dificulta a investigação e avaliação de novos conceitos. Podemos saber bastante sobre nosso hardware, porém nosso sistema operacional ainda é uma mágica diária
Em Paprika, a mais recente animação de Satoshi Kon (Tokyo Godfathers, Millennium Actress), Drª Chiba tenta quebrar o código. Como chefe de um projeto vanguardista, com um pequeno aparelho chamado DC Mini, ela consegue literalmente mergulhar nos sonhos de qualquer paciente.
O que ela vê é gravado. Dados podem ser analisados. Problemas podem ser resolvidos. As possibilidades de tratamentos são infinitas.
Em uma das sequências iniciais da animação, um replay de um sonho de um detetive mostra a descoberta de uma vitima de assassinato repetidas vezes. Uma mulher chamada Paprika – uma espécie de femme fatale colegial – está presente, o guiando numa confrontação da cena. Paprika é o que se poderia chamar de alter-ego onírico da Drª Chiba permitindo que ela se aproxime dos pacientes, ajudando-os a confrontar e entender seus sonhos.
O papel da personagem Atsuko Chiba, é a chefia do laboratório, a voz restrita e fria da ciência. Seu maior aliado é o Dr. Tokita, um obeso mórbido conhecido como ‘uma criança num corpo de gênio”, que desenvolveu a tecnologia do DC Mini. Ao contrário das premissas ele é genuinamente um bom sujeito. Porém o laboratório entra em pânico quando um dos protótipos é roubado. Aequipe sabe muito bem que se alguém tiver o poder de entrar nos sonhos, não haverá limites para o estrago em potencial. Isto claramente embasa a crença de alguns de que a equipe de pesquisadores entrou em território sagrado – o último refúgio da humanidade ainda não transformado pela ciência num mero banco de dados.
Como trabalho de animação, Satoshi Kon tem mais uma vez sucesso, assim como em seus outros trabalhos, pode-se perceber algumas referências aqui e ali. Como um dos mestres de seu ofício, ele convida o espectador a explorar os próprios preconceitos sobre quem somos, e sobre o mundo que habitamos. Aqueles que assistiram Millennium Actress e/ou Perfect Blue (nenhum dos dois foi lançado no Brasil) se sentirão em casa.Com os saltos em diferentes realidades espaço-temporais, pode-se ver claramente o porque da necessidade desta dualidade. Mesmo que o limite entre os dois mundos seja embaçado, nenhuma sensação de confusão vista em Perfect Blue é experimentada. Parte da razão disso é a personagem Drª Chiba/Paprika. Quando é Drª Chiba ela é forte digna e sensata; quando Paprika, é uma brincalhona e sedutora deusa dos sonhos. O tipo de personalidade que serve de base tanto para o grupo de cientistas, quanto para o próprio filme.
Os estúdios Madhouse mostram que estão no ápice neste trabalho. Os sinais de que os mundos 2D e 3D que coabitam a tela foram um dia entidades separadas ficam quase esquecidos. As imagens são tão vivas que parecem respirar. Porém, é o mundo dos sonhos – que tem mais a ver com a realidade do que se imagina – que pode tirar o folego dos mais entusiastas. Os fãs de anime, têm mais uma vez muito o que comemorar.
Entretanto, apesar do visual, aqueles mais adeptos dos filmes “live-action” podem rejeitar a lógica a narrativa deste trabalho. Imagino quantas pessoas realmente conseguirão se desligar de suas realidades na proporção exigida, mergulhando no mundo dos sonhos, assim como fazem as personagens. Assim como sonhos, o mundo é uma mixórdia sem sentido de experiências de vida, pensamentos ocultos e agendas, assim como todas as histórias e ícones que fazem parte de nossas vidas.
Susumu Hirasawa (artista pop de música eletrônica, conhecido por seu trabalho em trilhas sonoras de diversos animes como Detonator Orgun e Bersek) está como sempre, único com seus sintetizadores que se mostram em Paprika abrasivos e inspiradores, como se acelerassem o pulso da história.
Afinal, Paprika, em seu mundo onírico, é como uma super-heroína, e tráz à história uma diversão quase inocente. Sonhos são acontecimentos potencialmente felizes, e aqueles que tiveram suas experiências pervertidas pelos “terroristas dos sonhos”, estão inebriados com a possibilidade de que essa realidade seja alheia a qualquer forma de regra, seja da realidade ou do mundo onírico. Pouco esforço é feito para assustar ou provocar suspense; as personagens estão muito ocupadas em suas orgias oníricas e o expectador em delírio visual.
Mas há melancolia neste êxtase – há um surto de euforia quase maníaco que recobre um profundo sentimento de pesar e saudosismo. Kon está ciente de que, para tudo que se aprende, perde-se algo, e neste mundo de descobertas, está claro que deixamos muitas coisas preciosas para trás.
Paprika foi lançado diretamente em DVD no Brasil em 2007.
Paranoia Agent
Alguém que venha a ler esses textos, pode começar a dizer que só escrevo sobre coisas que nunca foram lançadas ...
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