Alguém que venha a ler esses textos, pode começar a dizer que só escrevo sobre coisas que nunca foram lançadas no Brasil. O fato é que, apesar de isso ser recorrente, não é proposital, apenas o resultado de se viver em um país que simplesmente prefere ignorar algumas formas de arte. Pra quem realmente se interessar, Paranoia Agent, assim como várias outras animações, está disponível aí pela web para download.
Satoshi Kon (Tokyo Godfathers, Perfect Blue, Millennium Actress, Paprika) veio no ano de 2004 com uma série televisiva inquietante que explora os nossos medos e brinca com eles. Um bom motivo para que esta série seja um excelente anime que tem algumas parecenças com outra animação do gênero, “Pet Shop of Horrors”, um anime que nos traz um sentimento de que algo de mau está para acontecer.
A história desenvolve-se de uma forma bastante surrealista e é contada sob dois pontos de vista: primeiro o das vítimas do ‘Shounen Bat’ e depois pelo ponto de vista dos investigadores e da investigação.
O interessante é que os personagens, mais ou menos desequilibradas, são todas muito ricas e muito realistas, apesar de a história nem sempre ser realista no modo como é contada. Através delas vemos diversos aspectos, nem sempre agradáveis e politicamente corretos, da sociedade japonesa, como por exemplo a velhota sem-teto que vive (como todos os sem-abrigo no Japão) numa tenda de lona azul num jardim público, ou o pai que fotografa a filha adolescente na sua privacidade e procura prostitutas pedindo-lhes que lhe chamem de “paizinho”.
O que torna Paranoia Agent um bom anime é a forma de como os personagens evoluem e se alimentam de cada um. Cada episódio é dedicado a uma personagem diferente, mostrando-nos de como estão ligados ao personagem anterior e de como as suas vidas vão ao encontro do jovem batedor. Esta linha contínua gerada pelo guião é uma lufada de ar fresco no universo da animação. Começando pela jovem designer Tsukiko, que é agredida pelo rapaz do bastão dourado vamos conhecer o resto das personagens que estão ligados entre si em relações e de pontes psicológicas. Cada personagem tem um ponto de vista diferente das mesmas coisas. É aqui que Paranoia Agent fica interessante. Cada persongem tem os seus problemas psiquicos. Tsukiko pensa que Maromi tem vida própria e que interage com ela. Um estudante de nome Yuichi sente que o mundo está contra ele para onde quer que ele vá. Ao vermos estes episódios é como estarmos a analizar “estudos de caso” criados por Kon e que já deviamos estar preparados para quem viu ao longa-metragem Perfect Blue.
Um dos aspectos mais interessantes de Paranoia Agent é o brutal realismo da série, reforçado pelo aviso no ínicio de cada episódio: “Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção”. Como qualquer bom mistério, encontramos pistas e sugestões que o espectador vai juntando e ajudando-o a ter uma visão mais clara dos acontecimentos. Há, certamente uma grande crítica à sociedade contemporânea, entretanto essa crítica é feita de um modo comedido e tortuoso o que faz com que as vezes seja sutil até demais.
A animação é fluida e tem excelente qualidade caracterizado pelo estilo inconfundível de Satoshi Kon, com uma arte suave e realista dos cenários.
A qualidade deste anime também esta associado à participação dos estúdios da Madhouse que já habituou o espectador a animações de qualidade.
A trilha sonora foi cuidadosamente preparada para esta série. Susumu Hirosawa preparou uma trilha oficial exclusiva que varia entre o funk e o industrial, usando sons do dia-a-dia que misturados com ambientes obscuros criam no espectador sensações quase hipnóticas. A abertura de Paranoia Agent (veja aqui) também merece destaque, “Yume no Shima Shinen Kouen” interpretado por Susumu Hirasawa. A animação é excelente apesar de não estar ao mesmo nível de outras obras de Kon (Millenium Actress, Tokyo Godfathers, e o mais novo Paprika), mas que compreende-se perfeitamente pelo baixo orçamento que um série envolve em relação a um filme, mesmo assim a animação encaixa na história perfeitamente.
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